Eron Rezende - Jornal A Tarde
Verdade – a palavra vem à boca dezenas de vezes, como se só ela pudesse
delinear o rosto da mulher. "Eu não canto política, apenas verdade", diz a
própria, divulgando crença e defesa. Porque é isso que Mama África,
documentário que biografa a cantora sul-africana Miriam Makeba, tem a indicar:
ali, posicionada entre o ativismo e a canção, está alguém que despejou seu olhar
limpo sobre o mundo.
Dirigida pelo finlandês Mika Kaurismäki, a fita é a escolhida para abrir a
edição baiana do In-Edit
- Festival Internacional de Documentário Musical, que acontece desta quinta,
14, até 21 de junho, no Cinema do Museu. É também uma referência a alcunha (Mãe
da África) conquistada por Makeba.
"Ela foi o que durante muitos anos tiveram os sul-africanos em lugar da
liberdade", diz Kaurismäki. "Era a voz da África negra. Uma voz cheia de ritmo
que, levando dança e diversão, clamava os direitos humanos".
Equilibrando-se entre a verve política de Makeba e sua jinga musical, o
documentário repassa, através de imagens de arquivo e depoimentos de músicos e
amigos, a trajetória da cantora: seu testemunho no Comitê das Nações Unidas
contra o Apartheid, em 1963, que lhe valeu o exílio por 31 anos; o sucesso
mundial alcançado pela canção "Pata Pata"; a perseguição nos Estados Unidos,
decorrente do envolvimento com um dos líderes do movimento Panteras Negras; sua
morte, em 2008, após participar de um show contra a violência na Itália.
O filme recupera também apresentações que atestam a desenvoltura com que
Makeba passeou pela música do mundo. Em algumas delas, executa "Chove Chuva" e
"Mas que nada", de Jorge Ben Jor, em português fluído.
"Ela não gostava do rótulo world music que recebeu. Dizia: 'toda música vem
do mundo, assim toda música é ‘world music'”, lembra Kaurismäki, ele próprio um
excursionista por sons estrangeiros. Radicado no Brasil há 20 anos (há seis em
Salvador), já filmou Moro no Brasil e Brasileirinho,
documentários que investigam a diversidade de ritmos do país.
"Abrir o In-Edit com Mama África foi uma decisão que veio da
comunhão de fatores: o documentário é brilhante, o diretor mora em Salvador e a
cidade tem uma ligação estreita com a África", diz Marcelo Andrade, responsável
por trazer o festival criado em Barcelona para o Brasil, onde é realizado em São
Paulo desde 2008 (o deste ano aconteceu de 1° a 10 de junho) e em Salvador chega
a seu segundo ano.
Força - Na bagagem desta edição do evento, outras
produções debruçam-se sobre a música produzida no continente africano.
Sudão e Marrocos, ambos do diretor espanhol Fermín Muguruza,
revelam a cena em países de maioria mulçumana. Tambores, do brasileiro
Sérgio Raposo, extrai do batuque a ligação entre Moçambique, Zâmbia e
Brasil.
Há ainda Benda Bilili!, exibido com louvor no festival de Cannes
em 2010 e dirigido pelos franceses Renaud Barret e Florent de la Tullaye, que
foca um grupo de músicos sem-teto e deficientes físicos (vítimas de
poliomielite) da cidade de Kinshasa, no Congo. Locomovendo-se em cadeiras de
rodas improvisadas, os integrantes do Staff Benda Bilili sacam groove de
violões, latas e garrafas. Segundo contou De la Tullaye na edição paulistana do
festival, a filosofia vital dos componentes do grupo é “escapar da mendicância,
não desanimar, ser forte".
"Foi uma coincidência termos essa ligação temática. Mas a curadoria nunca é
feita por tema. O que importa mesmo é a música e o cinema”, diz Marcelo,
ressaltando a presença de outros nomes fortes no programa do festival, como
Martin Scorsese, que dirige George Harrison: Living in the Material
World, e Ozzy Osbourne, retratado em God Bless Ozzy.
Rifa - O interesse pela música brasileira, no entanto, que
une realizadores e público e marca o In-Edit BR, desdobra-se em outras boas
obras, como Jorge Mautner - O Filho do Holocausto, de Pedro Bial e
Heitor D´Alincourt, e Lira Paulistana e a Vanguarda Paulista, de Riba
de Castro. Esse último, escolhido para abrir o evento em SP, revive o rock
paulistano dos anos 1980 através de um teatro-porão no bairro de Pinheiros –
bandas como Titãs e Ultraje a Rigor iniciaram suas carreiras ali.
Mas o destaque entre os nacionais é Vou Rifar Meu Coração,
documentário laureado com o voto do público em SP para representar o Brasil na
festa de dez anos do In-Edit, em 25 de outubro, em Barcelona.
Dirigido por Ana Rieper, a obra é uma incursão na música romântica e
popular, um pouco através dos seus realizadores (Waldick Soriano, Reginaldo
Rossi, Agnaldo Timóteo, Wando) e muito por anônimos que levam essa música em
suas vidas (personagens garimpados nos cinco mil quilômetros de viagem pelo
interior de Alagoas e Sergipe).
“Quando comecei a filmar tinha uma preocupação mais formal, mais focada nas
letras e nos autores. Com o tempo fui percebendo o público, que se tornou a
parte mais forte de Vou Rifar”, conta Rieper, recordando os dez anos
dedicados a realização do projeto. Na definição que atribui ao seu documentário,
está a do próprio In-Edit. “É sobre música, sua força e capacidade
tradução”.
Nenhum comentário:
Postar um comentário